Nada

Quando a dor ocupa o lugar do amor, fica ali o buraco que jamais vai ser fechado. Não tem jeito. Iremos nos apoiar na fé de dias melhores, em algum significado para viver, mas será difícil, quase impossível, encontrar motivo. O sol romperá a retina e arderá os olhos que não conseguem encontrar explicação. Deve ser porquê não exista nenhuma convincente o bastante. A razão se perdeu no caminho e qualquer palavra que seja dita será em vão se não tocar diretamente ao coração. A dor de perder alguém, para mim não se compara a nada. Devasta, encerra, enterra.

Minha primeira perda aconteceu há 7 anos quando meu avô faleceu. Lembro dele me esperando na varanda para um último abraço sem prever que no outro dia já não poderia mais me chamar de Ellen Petrovick de Montenegro, Rainha da Itália. De meses em meses eu chorava como se ele tivesse nos deixado naquele dia, então abraçava o boné dele pra sentir o cheiro e me consolava de que em algum lugar ele estaria melhor e me esperando.

Depois dele se foram minhas bisas lindas, o alicerce de tudo, a união da família, o colo, o abrigo.

O meu primo, um menino tão novo, alegre, que me ajudou na decisão de tratar a minha obesidade e ter uma vida mais saudável. Falar de qualquer pessoa em uma única linha parece injustiça com a grandiosidade deste ser humano tão único e especial. O Luquinhas é um anjo e faz muita, muita falta.

Aí veio o Tio Hélvio, um homem batalhador e um pai maravilhoso.

A Tia Eliane, que sempre nos deu o sorriso mais aberto, as palavras mais certas, o olhar mais acolhedor, uma calma sem tamanho, uma amizade tão sincera e deixou um esposo amoroso, meus primos lindos e netos mais lindos ainda.

O pai da Leca, que preciso confessar, ainda não consegui encontrar uma maneira de dizer o quanto sinto, porque não acredito que exista dor maior neste mundo do que perder a imagem do seu herói mesmo sabendo que ele viverá pra sempre dentro dela e ao invés de apoiá-la acabei me afastando.

E a mãe da Tati, ai Meu Deus, que teve uma complicação num acidente de carro. Como a gente pode lidar com a morte por acidente, antes da hora? Como a gente pode ousar consolar alguém se você não consegue imaginar tamanha dor?

Veio a avó do meu marido, que também é a avó da Samantha e a mãe da minha sogra e a única coisa que fiz foi me embrulhar na colcha de retalhos que ela me deu e usar todas as noites para me abençoar e manter aquecida. Já está suja, rasgada, mas nela dorme um pouquinho a nossa saudade.

E hoje choro, choro pela minha amiga mais doce, mais gentil, mais linda, choro porque esperava tanto quanto ela pela vinda do Matheus, choro porque ela o guardou na barriga e no coração por 9 meses e eles puderam apenas se abraçar por dentro, choro porque não imagino como ela conseguirá levantar daquela cama e se um dia ela conseguirá perdoar a Deus, e aos médicos, e ao seu marido, e ao tempo que corre devagar por tão grande perda, choro porque não consigo ter outra reação e preciso fingir que estou forte caso ela precise de mim, mas está difícil.

Pais, mães, avós e filhos não deveriam morrer. Nunca. Porque a gente aprendeu que este não é o ciclo natural da vida e desaprender na marra que quem é bom já cumpriu a sua missão e pode descansar mais cedo é muito injusto com os que ficam. Hoje o dia amanheceu sem sol. Hoje o dia amanheceu sem o nosso Matheus.

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Cineminha da semana: Samba

Quando nos mudamos para a Europa, deixamos de fazer muita coisa por não ter cidadania. Eu estava com visto de estudante e quando os 3 meses expiraram fui convidada a deixar o lugar onde morava (um quarto em um barco) logo pela manhã. Mesmo com o aluguel já pago, não tinham tolerância nem para me deixar arrumar as malas com calma.

Como meu marido estava com visto de turista, acabamos conhecendo alguns países na redondeza, mas a apreensão era diária. Quando o dinheiro acaba e você precisa trabalhar ilegalmente para se manter, não dá nem pra atravessar a faixa de pedestres sem estar no sinal vermelho. É sempre um risco te pegarem no metrô e deportarem com a roupa do corpo para alguma cadeia do Brasil. Daí a chance de voltar a passear naquele país se reduz a zero.

Engraçado é que mesmo assim, sabendo que não somos bem-vindos, continuamos insistindo em absorver outra cultura, continuamos desejando morar em um país do primeiro mundo, onde uma vida de qualidade faz parte do cotidiano de todos.

Voltamos de lá faz 7 anos e desde então só pensamos em voltar. Não que eu não ame o BRASIL. Sou super brasileira, adoro o jeitinho malandro dos brasileiros, sei que não existem belezas naturais (tanto na praia quanto na serra) mais maravilhosas que a nossa, mas eu adoro viajar, conhecer novas pessoas, aprender novos idiomas e acho que não estou deferindo um país ao outro por causa disso. Mas também sei que para realizar um sonho leva tempo e planejamento. E o filme que assisti ontem me faz lembrar muito bem do porquê ainda não fomos.

Samba é um filme francês, do mesmo escritor de Os Intocáveis. Apesar de ser o nome do protagonista do filme, de tocar música brasileira duas vezes, e de ter um personagem que finge ser brasileiro para se dar bem no trabalho e com as mulheres, fala de Samba Cissé, um imigrante senegalês que sonha fazer carreira como chef de cozinha, e apesar de viver em Paris há mais de dez anos, nunca conseguiu a autorização de residência de que tanto precisa.

Um dia é apanhado pela polícia e encaminhado para o serviço de estrangeiros e fronteiras para ser deportado. É então que conhece Alice, uma mulher que tem ataques de fúria e como tratamento é voluntária numa organização de apoio a imigrantes ilegais. Apesar de saberem que deveriam manter a distância para não se envolverem emocionalmente, eles encontram um no outro motivação para continuar a lutarem.

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Sobre ser feliz todos os dias da vida

É. As pessoas não se conformam. E talvez por isso não conseguem admitir a felicidade do outro. Quem consegue ser feliz 24 horas, 365 dias, 34 anos na vida?

Você deve chorar no banheiro. Só pode. Não tem como ser amada em casa e bem sucedida no serviço. Blábláblá. Mimimi. Snif. Hunf. Para que tanto mau agoro? Por que você não pode simplesmente aceitar que mesmo vivendo entre o susto e a sorte podemos sorrir com satisfação?

Eu nunca conheci uma pessoa mais feliz do que eu. Sim, tive momentos de descontentamento. Afinal, ser gorda, nerd e boazinha não é visto com bons olhos mesmo quando o bullying ainda nem tinha esse nome. Mas nunca, nunca, jamais fui triste. Choro em filmes de romance por puro hobby. Numa briga vou até o fim porque sinto prazer em argumentar. Invento histórias, acredito nelas, mas nunca menti a respeito da felicidade ou invejei a vida do outro. A minha é perfeita.

Concordo que estaria melhor se tivesse grana sobrando, viagens sobrando, o número da calça sobrando BAS-TAN-TE. Mas caramba, olhe a sua volta. De que vale passar a vida trabalhando se não for para sonhar com um Cruzeiro pela Europa e saber que um dia vai realizá-lo? Uma coisa que nunca devíamos barganhar é a esperança. E ter a maturidade de entender que antes dela vem a espera.

Não quer dizer que você precise começar de baixo só para contar a sua história de superação quando chegar no arquivo confidencial do Faustão, mas que precise ser mais leve. Entender que a vida é uma imensa roda gigante. Uma grande brincadeira. Se não tiver medo de altura, não se preocupe se um dia está em cima e no outro embaixo. Não se preocupe com ABSOLUTAMENTE nada. Apenas em deixar o vento bater no cabelo enquanto curte o clima fresco.

Sobre ser feliz todos os dias da vida: é possível. Eu sei, porque eu sou.

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Nunca mais: Frederico Boteco

Nunca mais como escondidinho. E olha, que este costumava ser um dos meus pratos preferidos. Escondidinho de carne seca, escondidinho de camarão, escondidinho de frango. Não importava o que estivesse escondido, e nem se estava tão bem escondido que só dava pra sentir o gosto da mandioca, era mesmo o creme que fazia tudo fazer sentido. Como se a vida tivesse mais sabor. Como se um simples barzinho se transformasse em um grande momento digno de se compartilhar.

Mas a história que quero contar hoje é sobre sexta passada. Sim, depois de uma semana, ainda não consigo digerir o ocorrido. Estava em um boteco perto de casa (Frederico Boteco na Avenida Aratãs, 578, Moema) quando, diante de um cardápio extenso, pedi a recomendação do garçom sobre o escondidinho. Ele disse que era muito bom, que era feito em casa, e que eu não ia me arrepender. Foi então que depois de 40 minutos, a comida chegou toda queimada, mas não quis reclamar me limitando a retirar o queijo de cima e colocar ao lado. Na primeira garfada senti que o camarão não estava tão fresquinho, mas o pior era o recheio. Não era mandioca, não era batata, não era requeijão, e sim uma meleca branca, gosmenta e hidrogenada que com certeza me faria muito mal se eu resolvesse insistir.

Educadamente, meu marido perguntou ao gerente o que era aquilo e disse que não iríamos comer. Até elogiamos o ambiente, a fartura do outro prato, mas gostaríamos que ele entendesse que não era só uma questão de gosto, estávamos nos sentindo enganados. O gerente e sua barriga imensa, apenas se curvaram em nossa direção para dizer: Quer que embrulhe para levar? Bom, a gente não estava querendo embora, mas depois desta pergunta ridícula e dos 37 reais que nos foi cobrado indevidamente tivemos que nos retirar. Para finalizar, o garçom ainda disse: tem gente que come, mas aqui o negócio é complicado, se você comer pimenta demais eles descontam do nosso salário.

E para não me decepcionar mais, resolvi abrir o jogo com os amigos: se eu fosse você, não colocaria os pés neste bar. Nunca mais.

Amigos ou turma?

Mais do que fazer amigos, pertencer a uma turma, é algo primário. Remete a pré-escola quando éramos pré-selecionados para dar certo ou não na vida. Aqueles que eram bonitos, engraçados, bagunçeiros e bons de bola estavam com o posto garantido. Todo mundo queria ficar ao lado deles. Aqueles que eram mais estudiosos, quietinhos, gordinhos, não tinham vez.

Com a idade a gente percebeu que o ideal é o meio termo. Nada de ficar fechado no seu mundo, mas também não precisa ser maria-vai-com-as-outras. Respeitar sua individualidade (e vontades) com responsabilidade é o melhor caminho.

Só que não adianta dizer o contrário. Uma pessoa que sempre se sentiu em segundo plano, que as pessoas nem sabiam o seu nome mas inventavam um apelido diferente por dia, que nunca foi escolhida para dançar quadrilha, que o único grupo a qual pertencia era o da prova surpresa, quando se sente aceita, mais ainda, acolhida por uma turma, fica tão tão tão agradecida que muitas vezes anula sua personalidade para não mandarem ela embora. Adios. Asta Luego. Bye. Tutti buena gente.

A questão é que de uma hora para outra você vai acabar trocando os pés pelas mãos. Sem querer, vão ver que você não é tão cool assim. Vão colocar você na parede, afinal: como consegue ser amiga de todos? por que não fala mal de ninguém? fica em cima do muro para não se comprometer? é falsa porque se dá bem com alguém cheia de defeitos? escolha, escolha, escolha. Porque nenhuma outra turma irá gostar de você. Quando sair dessa, já era.

E aí, uma turma que tinha 20, 25 pessoas, no final se resume a 3. Você, um menino e uma menina, que não sabem mas vão acabar namorando e você vai ficar sobrando. Seus melhores amigos vão colocar você um contra os outros.

Eles não escolheram você porque era especial, mas porque tinha um lugar sobrando na mesa. E no grupo de whats up, no face… Enquanto você não for você, pode ficar. Aí você faz o impossível para não incomodar e aparecer só de vez em quando, falando o mínimo necessário. Melhor. Vai por mim.

Outra coisa importante para fazer parte de uma turma é se lembrar que nunca mais irá ao banheiro sozinho, poderá almoçar sozinho ou decidir seus próximos passos sem alguém dando palpite se sentindo no direito de até mandar na sua vida. Mas novamente lembrando: a escolha foi sua. E qualquer separação, será drasticamente dolorosa.

O pior é que durante a sua vida, muitas turmas passarão. E todas as vezes que estiver na sua, se sentirá tão amado, mimado e querido, que dará sua vida por ela. O problema é um só: quantas vidas você tem?

Cineminha da semana: O Jogo da Imitação

Se até Leonardo DiCaprio se interessou pelo papel de Alan Turing, pioneiro na computação que quebrou os códigos de guerra da Alemanha Nazista, ajudando a salvar milhões de vidas para mais tarde ser condenado por sua homossexualidade, imagina se eu perderia este filme baseado no livro Alan Turing: The Enigma, de Andrew Hodges.

Muitos relatos da Segunda Guerra descrevem a luta corpo a corpo entre soldados e suas políticas. Desta vez, vimos por outro panorama, como uma máquina poderia “pensar”diferente do homem e assim solucionar rapidamente estratégias de ataque. Vimos também que o diferente quase sempre é especial. Que, às vezes, as pessoas que menos esperamos podem fazer as coisas mais inacreditáveis.

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